O que o seguro viagem cobre, e o que não cobre, garantia por garantia

Um seguro viagem cobre despesas médicas e hospitalares no exterior, repatriação sanitária, bagagem extraviada ou danificada, cancelamento e interrupção da viagem, responsabilidade civil e atraso de voo, cada garantia com o seu próprio teto. Não cobre o que a apólice exclui: doenças preexistentes, esportes de risco, gravidez avançada, sinistros sob efeito de álcool e viagens a países fora da área contratada. Ler os tetos e as exclusões vale mais do que ler a lista de coberturas.

7 min de leitura

Toda apólice de seguro viagem é vendida por uma lista de coberturas, mas é lida de verdade em dois lugares: o quadro de tetos e a lista de exclusões. Duas apólices que anunciam as mesmas seis garantias podem se comportar de maneira completamente diferente no dia de um sinistro. Este guia percorre garantia por garantia o que está coberto, com que limite, e onde a cobertura para.

As garantias não sobem juntas: a amplitude, linha por linha

Antes de percorrer cada garantia, um retrato que só a leitura dos contratos dá. Estes são os cinco contratos que documentamos no nosso comparador, todos de cobertura mundial, comparados garantia por garantia.

GarantiaMenor valor dos cincoMaior valor dos cincoAmplitude
Despesas médicasR$ 1,4 milhãoR$ 4 milhões2,9 vezes
Responsabilidade civilR$ 8,6 milhõesR$ 26 milhões3 vezes
BagagemR$ 1,4 milR$ 11 mil7,9 vezes
CancelamentoR$ 8,6 milR$ 52 mil6 vezes, e só 2 dos 5 publicam um valor
Repatriação sanitáriaa custo reala custo realsem valor máximo nos 5

A leitura é contraintuitiva e vale mais do que uma lista de coberturas: a garantia mais desigual não é a médica, é a bagagem. O teto médico varia menos de três vezes entre os cinco contratos, enquanto o limite de bagagem varia quase oito. Quem escolhe pelo teto médico está usando o critério mais estável da tabela, e é justamente por isso que precisa olhar as outras linhas uma a uma.

Despesas médicas e hospitalares: a garantia central

É por ela que existe o seguro viagem. Cobre consulta, exame, internação, cirurgia, medicamento prescrito e, em geral, atendimento odontológico de emergência, no exterior, até um teto por viajante e por viagem. O que muda tudo é o tamanho desse teto diante do custo do destino.

Dois detalhes que a apólice esconde no rodapé, e que decidem quanto sai do seu bolso: o atendimento pode ser em rede referenciada, com a seguradora pagando o hospital direto, ou por reembolso, com você pagando primeiro; e algumas garantias trazem franquia. Confira as duas coisas antes de contratar, porque nenhuma delas aparece na tabela de tetos.

Repatriação sanitária e traslado: coberturas separadas

A repatriação sanitária cobre o transporte médico do viajante de volta ao Brasil quando o quadro clínico exige, e o traslado de corpo cobre o cenário mais grave. Quase sempre são garantias com limite próprio, fora do teto de despesas médicas. A pergunta certa não é se ela existe, é qual o regime: nos cinco contratos da tabela acima, ela é paga a custo real, sem valor máximo, e é a única linha em que os cinco se comportam igual. Quando um contrato substitui isso por um número fechado, o que está acima do número é seu.

Bagagem: complementar, não substituta

A garantia de bagagem indeniza extravio, dano ou roubo, até um teto que é bem menor do que o valor real de uma mala, e é a linha mais desigual da nossa grade: entre os nossos cinco contratos ela vai de R$ 1,4 mil a R$ 11 mil. A diferença entre as duas pontas é o preço de um notebook, e nada indica no nome da garantia qual das duas você está comprando. Ela costuma funcionar de forma complementar à indenização da companhia aérea, ou seja, entra depois dela e sobre a diferença. Objetos de valor, eletrônicos, dinheiro e documentos aparecem com frequência entre as exclusões dessa garantia. Sem o comprovante de irregularidade emitido no aeroporto, o pedido raramente avança.

Cancelamento e interrupção: só pelos motivos listados

Primeiro fato, antes dos motivos: cancelamento não é uma garantia padrão. Dos cinco contratos que documentamos, só dois publicam um valor para ela, e os dois valores não se parecem: R$ 8,6 mil num caso, R$ 52 mil no outro, seis vezes mais. Nos outros três não encontramos valor nenhum nos documentos que lemos, e ausência de valor documentado não é promessa de cobertura.

Quando existe, o cancelamento cobre despesas não reembolsáveis quando você deixa de viajar por um motivo previsto na apólice: doença, acidente, internação ou falecimento de um familiar, às vezes demissão sem justa causa ou convocação judicial. Desistir por vontade própria não é sinistro coberto, salvo em extensões específicas quando elas existem. A interrupção cobre o retorno antecipado e a parte não usada da viagem. O detalhe do texto vale mais do que o nome da garantia: veja o guia seguro viagem com cancelamento.

Responsabilidade civil: o dano que você causa a terceiros

Cobre indenizações por danos corporais ou materiais que você cause a outra pessoa durante a viagem, dentro de um limite. Nos nossos cinco contratos, esse limite vai de R$ 8,6 milhões a R$ 26 milhões: é a única garantia da tabela cujo valor mais baixo já é maior que o teto médico mais alto. Danos causados por atividade profissional, por veículo motorizado e a bens alugados ou emprestados costumam ficar de fora. É uma garantia discreta que fica caríssima quando falta.

Atraso de voo e de bagagem: uma cobertura de reembolso

Não é uma indenização automática. Em geral a apólice exige um atraso mínimo em horas e reembolsa despesas comprovadas de alimentação, hospedagem ou itens de primeira necessidade, até um limite. Confira na apólice o número de horas e a lista de comprovantes aceitos, porque é aí que a garantia se ganha ou se perde.

As exclusões clássicas do mercado brasileiro

Estas voltam em quase toda apólice vendida no Brasil, seja de qual seguradora for:

  • Doenças e condições preexistentes: tratamento excluído, no máximo a estabilização de uma crise aguda.
  • Esportes de risco e atividades de aventura: mergulho, esqui, escalada, esportes motorizados. Muitas vezes só com extensão paga.
  • Gravidez a partir de determinada semana: o limite varia por plano, confira na apólice antes de contratar.
  • Sinistros sob efeito de álcool ou substâncias: recusa quase sistemática.
  • Países fora da área contratada: uma escala longa ou um país vizinho podem ficar sem cobertura.
  • Atos intencionais, participação em conflitos e viagens contra recomendação médica: sempre fora.
  • Tratamentos eletivos, estéticos e continuidade de tratamento iniciado no Brasil: fora do escopo de emergência.

Para sair do genérico, um exemplo lido: nas condições gerais do BB Proteção Viagem constam, entre as exclusões, as doenças crônicas ou preexistentes e a sua agudização, gravidez, parto, pré-natal e check-up geral, esportes radicais e prática desportiva em competição ou treino, acidente de trabalho, e fisioterapia, óculos, lentes, muletas e próteses. É uma lista curta de ler e reveladora: o acidente de trabalho e a fisioterapia não estão em nenhuma lista de “exclusões clássicas” divulgada em peça publicitária, e são exatamente o tipo de item que decide um pedido de reembolso.

Cobertura não é reembolso: as obrigações do viajante

Mesmo dentro da cobertura, a apólice impõe deveres: acionar a central de atendimento antes ou durante o atendimento, respeitar o prazo de aviso do sinistro e apresentar documentos (relatório médico, notas fiscais, boletim de ocorrência, comprovante de bagagem). Descumprir esses passos é uma das causas mais banais de recusa, e uma das mais evitáveis.

O que os documentos brasileiros dizem, e o que não dizem

O setor é regulado pela SUSEP, o que dá ao segurado um canal formal de reclamação. Isso não significa que a informação esteja publicada. Ao reunir os documentos públicos das marcas que atuam no Brasil, encontramos com frequência um regulamento sem nenhuma tabela de coberturas, ou uma tabela de invalidez permanente em percentuais do capital, que responde a outra pergunta.

A consequência para a leitura desta página: a lista de garantias acima é um mapa do que existe no mercado, não uma promessa do que está no seu contrato. Os valores das cinco linhas da nossa tabela vieram de contratos que lemos. Para o seu, o documento que vale é o bilhete, e o número que vale é o que está escrito nele.

Como usar esta leitura

Antes de contratar, abra a apólice em três pontos: o quadro de tetos, a lista de exclusões e as obrigações em caso de sinistro. E leia o quadro de tetos linha por linha, não pela linha médica: como mostra a tabela de amplitude no início desta página, duas apólices podem convergir no teto médico e divergir oito vezes na bagagem. Depois compare no comparador de seguro viagem. Se ainda estiver no início, comece por o que é seguro viagem; se já sabe o que quer cobrir, siga para como escolher; se o problema já aconteceu, vá direto para como acionar o seguro viagem.

Perguntas frequentes

  • O seguro viagem cobre doença preexistente?
    Em regra, não. A maioria das apólices exclui o tratamento de doenças e condições que já existiam antes da viagem, cobrindo no máximo a estabilização de uma crise aguda. Se você tem uma condição crônica, procure um plano que a mencione expressamente e confirme por escrito antes de contratar.
  • A repatriação está incluída no teto de despesas médicas?
    Normalmente não: é uma garantia com limite próprio, e o que interessa nela é o regime. Nos cinco contratos que documentamos no comparador, a repatriação é paga a custo real, sem valor máximo. Existem no mercado planos com um número fechado no lugar, e nesse caso a diferença acima dele é do viajante. Leia as duas linhas separadamente.
  • O seguro cobre o cancelamento da viagem por qualquer motivo?
    Não. A cobertura padrão de cancelamento vale para motivos previstos na apólice, como doença, acidente ou falecimento de um familiar. Desistir por vontade própria não é sinistro coberto, a menos que você contrate uma extensão específica do tipo cancelamento por qualquer motivo, quando ela existir.
  • Esportes e atividades de aventura estão cobertos?
    Depende do plano. Trilhas leves e esportes recreativos costumam passar, mas mergulho, esqui, escalada, surfe em condições extremas e esportes motorizados aparecem com frequência na lista de exclusões ou exigem uma extensão paga. Confira a lista nominal na apólice, não o espírito da atividade.
  • O que acontece se eu viajar para um país fora da área contratada?
    A cobertura simplesmente não se aplica naquele território. Se o roteiro inclui um país vizinho, uma escala longa ou uma conexão fora da área contratada, escolha uma área mais ampla desde o início, em vez de descobrir o problema no atendimento.
  • Bagagem extraviada: o seguro paga o valor das minhas coisas?
    Paga até o teto da garantia de bagagem, e esse teto é a linha mais desigual da tabela: nos cinco contratos que documentamos, ele vai de R$ 1,4 mil a R$ 11 mil, quase oito vezes de diferença. A indenização entra quase sempre de forma complementar à da companhia aérea. Guarde o comprovante de irregularidade emitido no aeroporto: sem ele o pedido raramente avança.
  • Vale a pena ler a apólice inteira antes de contratar?
    Vale ler três partes: o quadro de garantias com os tetos, a lista de exclusões e as obrigações em caso de sinistro (prazo de aviso, central de atendimento, documentos). São poucas páginas e é onde os problemas reais aparecem.